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A coreografia macabra do Inimigo invisível e do Império onipresente

Por Luis Fernando Novoa Garzon
Sociólogo, Professor Universitário
Membro do ATTAC/Brasil

Desconstrução da história, supressão de eventos e fatos contraditórios, manipulação do pânico, indução da histeria, controle da língua e do significado, encarnação do mal absoluto em um inimigo terrível e imaginário. A partir de 11 de setembro guerra é paz, liberdade é escravidão e ignorância é força. Esses são os ingredientes de uma obra-prima de George Orwell, o profético livro "1984". Imaginava-se até então que se tratava de uma parábola datada porque endereçada aos regimes stalinista e nazista iniciados nos sombrios anos 30. A mensagem universal da obra foi neutralizada por um recorrente mecanismo de defesa dos donos do poder: o expurgo em outrem de todos os males da civilização. A "patologia alemã" ou a "patologia russa" foram construídas para afirmarem a "sanidade anglo-saxâ" tanto na Segunda Guerra Mundial quanto na Guerra Fria, respectivamente. Mas para espanto daqueles que fizeram da democracia e do livre mercado um fetiche e não uma vivência, "1984" está começando em 2001.

Evidências aterradoras disso. Em uma só tacada e em um só dia o imperialismo norte-americano passou a ser chamado de "Império do Bem". O "Mal" absoluto no mundo contemporâneo passou a se chamar fundamentalismo islâmico. Bin Laden e seus asseclas fizeram o favor de absorver para si todas as mazelas próprias das elites capitalistas. Eles têm a marca registrada e exclusiva de "violentos", "desumanos", e de assassinos "frios e calculistas". Fazendo cara de susto as elites capitalistas vêm nos alertar que os islâmicos radicais são "monstros" dispostos a destruir a "modernidade", a "democracia" e a "economia de mercado".

Quem jogou por terra as promessas luminosas da modernidade senão as neo-aristocracias burguesas e burocráticas? Quem pisoteou os ideais e os princípios democráticos senão os lobbies dos feudos econômicos? Quem tornou peça de ficção o capitalismo concorrencial senão as absolutistas corporações multinacionais?

Nada mais conveniente aos puritanos e fundamentalistas do que um bode expiatório para projetar seus erros e eliminar todo o dissenso . O clássico recurso dos imperialismos para justificarem a expansão de seu domínio e de sua riqueza através da violência, da megalomania e do racismo.

Supremo inimigo esse que propicia a cimentação e soldagem das incômodas rachaduras do sistema capitalista. Amado inimigo esse que permite o enquadramento brutal de todas as zonas de instabilidade do planeta. Esperado inimigo esse, apocalíptico, extra-territorial e invisível, que inaugura a necessidade de um sistema de controle e vigilância compatível, um panopticum. Inescapável conclusão: se o inimigo é capaz de tudo e pode estar em qualquer lugar, a única forma de submetê-lo é constituir um império mundial totalitário e onipresente.

A recessão econômica e o risco financeiro sistêmico agudizados após 1997 e a crescente deslegitimação política e cultural da sociedade consumista e hedonista geraram instabilidade em níveis insuportáveis para a ordem capitalista global. A reordenação da geometria do poder internacional conduzida a fórceps pelos EUA em nome do combate ao terrorismo resultará em: a) militarização das relações internacionais e realce das disputas geopolíticas; b) o involucramento das negociações multilaterais no interior de alianças maniqueístas, com relevo para assuntos de segurança e controle; c) o estabelecimento de mais um próspero ciclo de keynesianismo bélico, que servirá como instrumento de empuxe para a ampliação de investimentos e de lastreamento do sistema financeiro internacional. Mais uma antiga lição: guerras são lucrativas e concentram poder nas mãos de determinadas frações e setores em detrimento de outros.

Bin Laden parece ter ouvido o clamor do Império e veio salvá-lo. Um messias forjado no interior complexo industrial-militar norte-americano, que outra natureza poderia ter senão a destrutiva-construtiva? O caos é produzido para que se produzam novas ordens. E não se trata de conspiracionismo, mas de um mecanismo de mercado clássico, o de se criar dificuldades e problemas para se vender facilidades e soluções.

Os atentados atribuídos a Bin Laden desde o começo da década de 1990, quando "rompeu" com os EUA, têm vínculos simétricos com as violentas reacomodações internas das elites norte-americanas. Uma potência erguida sob o signo da violência e sobre a pilha de milhões de cadáveres, não poderia ter outra forma de estruturação do poder político. O destino de bilhões de dólares e o poder sobre parte considerável do mundo não são decididos amigavelmente em um chá de senhoritas. Os que tinham dúvidas quanto ao caráter canibalístico dessa disputa perderam suas ilusões e alguns, literalmente, suas cabeças.

Os interesses são muito mais contraditórios em um Império do que em um Estado-nação. Os pactos de poder não só são mais complexos como abrigam polarizações muito mais agudas e por isso mesmo violentas. Ao mesmo tempo, a formação territorial dos EUA dependeu da imposição da lei na terra sem lei. As instituições nasceram "puras" e puritanas e sem resquícios feudais no solo americano. Foi com base nessa associação esquizofrênica entre regras morais superiores e violência heróica que se vislumbrou o "destino manifesto" dos EUA. Por merecimento e superioridade, os norte-americanos (brancos) devem governar e liderar o mundo.

Alguma semelhança desse mito fundador com o arianismo nazista não é mera coincidência. Os liberais e os democratas não se esforçaram tanto à toa. A virulência das escaramuças entre os oligopólios e os diversos aparelhos policiais-militares costumam ficar escondidas por detrás de conceitos como "democracia pluralista", " livre mercado político" e "poliarquia". Essa assepsia ideológica é extremamente útil quando o núcleo duro do poder resolve ajustar suas contas. Fica fácil transferir a responsabilidade de seus atentados, bombas, explosões, execuções para estrangeiros ou loucos de plantão como Lee Oswald e Thimothy MacVeigh.

Poder econômico concentrado, maniqueísmo, violência como língua oficial e racismo. Esse é o sistema político-cultural dos sonhos da extrema-direita. Os atentados do dia 11 de setembro de 2001 e as incriminações e desdobramentos posteriores pertencem a uma lógica terrorista não alheia à da CIA (um Estado terrorista dentro do Estado) e de seus grupos anexos, as Milícias de Montana e de Michigan, o movimento neonazista estadunidense, a Ku Klux Klan e de aliados "oficialistas" no interior do Partido Republicano, como o Vice-Presidente Dick Cheney. Ninguém pode negar que também são ou "foram" bons companheiros da CIA a Máfia, os Cartéis do narcotráfico e os grupos fundamentalistas como o de Bin Laden.